Niram Artrevista de arte y espacio cultural |
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Archivo Niram ArtHomenagem a ALBERTO CEDRÓN
June 01, 2009
Um
clima de paixões, ciúmes, traições, amores, vilanias emana do interior da
caverna figurada na tela. As pupilas da visitante se dilatam. Tropeça no busto
de uma Vênus sem cabelos, cavas sem olhos, espreitando diretamente da
superfície do cérebro. Envolve-se, penetra nos meandros das tintas, mistura-se
nas cores fortes, nas figuras de homens e mulheres de eras desconhecidas. São
as telas da série Subterrâneos. Cada uma delas representa uma cena, como no
teatro. Personagens vão desfilando no subsolo da terra, saindo das camadas
inferiores do subconsciente do artista. São seres concretos e imaginários,
antigos e modernos. O homem, à luz fraca dessa manhã de julho, ofega dentro de
seu corpo atarracado. - A vida é assim, passado e futuro só existem na nossa
cabeça, menina. A visitante levanta os olhos. Embora a tintura de seus cabelos
lhe esconda as marcas da idade, sabe, está longe de merecer aquele tratamento.
Desconhece o detalhe da recente convivência do artista com os portugueses que o
leva a substituir o brasileiro senhorita pelo carinhoso tratamento de menina.
Desvia o seu olhar para um grosso volume de jornais pousado sobre a mesa. Na
página aberta, a foto do rapaz lembra o ar misterioso do jovem Marlon Brando -
Alberto Cedrón expõe pinturas e cerâmicas. A data do jornal trinta anos mais
velha, a foto do artista trinta anos mais novo. Estão matando cavalos, menina.
Com tanta oferta barata de sexo na televisão, estão matando a sexualidade. Os
cavalos são o símbolo da sexualidade. À direita têm um significado; à esquerda
têm outros. Ele mesmo nunca experimentou daquela carne, embora o preço fosse
baixo nos açougues de Paris onde quase morreu de fome. O touro é o Alfa, a
primeira letra do alfabeto grego. A vaca representa a mãe terra, por isso os
hindus respeitam as vacas. Começaram a mexer com os símbolos mais arcaicos,
sagrados, veja o resultado - a síndrome da vaca louca. Não é brincadeira nem
invenção da mídia. Saiu de Portugal quase correndo, em parte tangido pelo medo
dessas vacas loucas. Andava bem de vida, de repente, a síndrome da vaca louca.
Vendeu os seus pertences a baixo preço, gastou trinta mil dólares para
encaixotar seus instrumentos de trabalho. O resto deixou lá. Trouxe toda esta
tralha para Porto Alegre. De fato, nunca viu em carne e osso um infeliz atacado
da doença, viu na TV as imagens virtuais. O indivíduo erra sem equilíbrio,
tomba como estátua. O cérebro se transforma em uma esponja, o corpo vai
paralisando, os olhos petrificados, a voz não consegue exprimir a grande dor. No
princípio também não acreditavam na AIDS. Achas que vão sacrificar milhares de
vacas em toda a Europa?
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